Luiza cria algo sem nome próprio. Esbarra na pintura, mas vai além. Pincela compulsivamente usando seu corpo como se estivesse em cena. Constrói uma narrativa sem roteiro trocando o pincel pelos dedos. Não obedece a medida das telas gigantes e mancha o seu redor. Trata o quadro com a delicadeza do não frágil. Parece querer que a tela saiba se pintar sozinha. Monta cenários de tinta disponíveis ao toque e retoque. Deixa a tela ser contaminada pelo espaço. Desfruta do processo sem planejar uma conclusão. E ainda assim se pergunta... Por que (não) pintura?

Tamara Ganem - artista e jornalista

Entremeios

Ana Paula Cohen e Luiza Gottschalk

 

Ana Paula Cohen: A dança nessa exposição surge da busca por relacionar o seu trabalho de teatro e o de pintura. Onde você identifica essas relações?

 

Luiza Gottschalk: O trabalho que desenvolvi com a Companhia de teatro Os Satyros, ao longo de 10 anos, se relaciona com a ideia de performatividade. Não é um teatro representativo, que conta uma história de algo fora do tempo da apresentação. De forma semelhante, minhas pinturas não têm um referente externo, não são pensadas a partir de uma imagem, elas são o resultante do embate entre os corpos envolvidos.

 

APC: Talvez se você descrever o processo de realização das pinturas da série Montanhas que choram – apresentadas na exposição Ensaio aberto –, os corpos envolvidos nesse embate fiquem mais claros.

 

LG: Eu escolho um tecido com uma trama bem aberta, um tipo de linho, e o sobreponho a uma tela preparada para pintura. Pinto com uma tinta aguada, basicamente água, pigmento em pó e fixador. A água em contato com o tecido já encontra seus próprios caminhos.

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